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Muitas vezes me pego pensando se o mundo digital criou um homem novo. Não apenas alguém mais conectado, mas um tipo diferente de sujeito. Como se existisse uma ruptura silenciosa entre o humano que conhecíamos e esse outro que vive colado ao celular, atravessado por notificações, feeds e estímulos contínuos.
À primeira vista, a impressão é forte: parece outro ser. Outra alma. Outro tipo de presença no mundo. Mas essa certeza dura pouco quando você começa a olhar de perto.
Freud lidava com um sujeito reprimido, atravessado por silêncio, autoridade e conflito interno. Um sujeito que sofria porque não podia dizer tudo o que sentia.
Hoje o problema parece invertido. O sujeito pode dizer tudo. O tempo todo. E mesmo assim continua em sofrimento.
Talvez Freud não tivesse previsto isso não porque estivesse errado, mas porque o cenário mudou demais. Ele estudava pessoas tentando conter o desejo. Nós estudamos pessoas tentando não se perder nele.
E, curiosamente, ambas sofrem por excesso de alguma coisa que não sabem administrar.
Existe uma tentação contemporânea de achar que surgimos como uma nova espécie psicológica. Um “homem digital”, como se a internet tivesse reescrito o inconsciente. Mas talvez isso seja exagero.
O mais plausível é menos glamouroso: o mesmo aparelho psíquico, exposto a uma pressão que nunca existiu antes. O desejo continua operando. A defesa continua funcionando. A repetição continua insistindo. O inconsciente não desapareceu.
Só ganhou velocidade.
O que muda de forma mais visível é a sensação de identidade. Ela deixa de ser algo estável e passa a ser algo que precisa ser atualizado. Quase como um sistema operacional emocional. Hoje você não “é” alguém de forma contínua. Você se apresenta, se ajusta, se reformula, se expõe, se corrige.
A memória já não está dentro da cabeça. Está espalhada em arquivos, fotos, históricos e timelines que lembram quem você foi melhor do que você mesmo.
E o desejo deixa de ser um movimento interno e passa a ser um campo de sugestões externas. Você não quer só o que quer. Você quer também o que te mostram que você deveria querer.
👉🏼 Leia sobre os efeitos do excesso de informações neste texto: Excesso de informação: quando a mente humana entra em colapso.
Existe um detalhe quase desconfortável nisso tudo: mesmo sozinho, o sujeito digital raramente está sozinho de fato.
Há sempre uma audiência implícita. Um olhar imaginado. Uma possibilidade de exposição. Uma versão futura do próprio gesto sendo avaliada antes mesmo dele acontecer. Isso muda tudo.
Porque o que antes era interioridade agora vira performance em potencial.
E quando tudo pode ser visto, até o pensamento começa a hesitar.

A pergunta inicial volta, mas menos confiante.
Talvez não tenhamos criado um novo homem. Talvez tenhamos apenas exposto o antigo a um nível de estímulo que ele nunca teve que enfrentar.
O resultado não é uma nova essência, mas uma nova instabilidade.
E o psiquismo, que sempre foi uma estrutura de equilíbrio precário, começa a oscilar de forma mais visível.
Talvez a pergunta mais honesta não seja se o digital criou um novo homem. Mas o que aconteceria se Freud passasse um dia inteiro no feed infinito.
Não como teoria. Como experiência.
👉🏼 Leia também este artigo sobre o tema: Excesso: A Cultura Digital Molda Nossa Identidade e Percepção do Real e não deixe de conhecer o blog Veja Claramente 💻
[…] 👉🏼 Leia o primeiro texto sobre este assunto aqui no site: O Digital criou um novo homem? […]