O inconsciente em banda larga 

Existe uma tendência quase automática de tratar a tecnologia como uma força externa que “mudou o ser humano” e criou “uma espécie” de inconsciência em banda larga. Como se o novo mundo digital tivesse criado emoções inéditas, desejos artificiais ou uma nova estrutura mental nesse também novo homem tecnológico.

Buscando sobre esse dilema, eis que a psicanálise clássica me deu um norte. Me deixe discorrer. 

O problema talvez nunca tenha sido a tecnologia, pois se analisarmos bem, ela não criou quase nada que se identifique com o inconsciente humano. Os nerds vão discordar, mas sigo. 

Talvez ela apenas tenha amplificado aquilo que sempre esteve ali e agora tudo acontece rápido demais. 

👉🏼 Leia o primeiro texto sobre este assunto aqui no site: O Digital criou um novo homem?

Freud analisava vazamentos lentos 

A psicanálise nasceu observando pequenas falhas do comportamento humano. Lapsos, sonhos, sintomas, repetições e atos aparentemente sem sentido. Freud entendia que o inconsciente não se apresentava de maneira direta. Ele escapava por rachaduras. Surgia deformado, disfarçado, simbólico. 

O sujeito escondia muito sobre si, inclusive de si mesmo. Hoje a sensação é diferente. Não porque o inconsciente desapareceu, mas porque ele ganhou novas formas de circulação, com rachaduras complementadas por fibra ótica de alta velocidade de dados. 

O digital reduziu o intervalo entre impulso e expressão 

Existe um detalhe importante na experiência contemporânea: quase nada permanece interno por muito tempo. O afeto aparece e imediatamente procura saída, a angústia vira postagem e, fundamentalmente, o desejo vira busca. 

Estou certo de que nem preciso dar ênfase no fato de que carência virou exposição sem filtro, o vazio se tornou consumo de estímulo. Antes havia um intervalo maior entre sentir e mostrar. Hoje temos até o inverso disso: primeiro todos e mostram, depois tentam sobreviver aos sentimentos. Acho que é cíclico. 

Esse intervalo era psicologicamente importante. Era nele que aconteciam elaboração, repressão, simbolização e conflito interno. O ambiente digital encurta drasticamente esse espaço. O sujeito não apenas sente. Ele publica

O feed não mostra só conteúdo. Ele devolve desejo 

As redes sociais criaram uma situação estranha: o sujeito passou a viver dentro de mecanismos que refletem continuamente seus próprios impulsos. Foram pensadas e projetadas para isso, é um sucesso. 

O algoritmo observa comportamento, identifica padrões, antecipa interesse e devolve versões refinadas do próprio desejo. Isso altera profundamente a experiência subjetiva. 

A pessoa acredita estar explorando livremente o mundo digital, quando muitas vezes está apenas circulando dentro de versões ampliadas de si mesma. 

O feed se torna uma espécie de espelho psíquico automatizado. Um espelho que aprende. 

A repetição virou infraestrutura 

Freud já percebia que o ser humano repete comportamentos mesmo quando eles produzem sofrimento. É até fácil de perceber e entender. A repetição era uma dinâmica psíquica, contudo, hoje ela também é tecnologicamente induzida ao extremo. 

Você interage uma vez com um tema e ele passa a reaparecer continuamente: vídeos, anúncios, discussões, imagens, recomendações. A máquina aprende a insistir junto com o sujeito e, então, o novo homem ganha um estimulador nas suas compulsões. 

Isso cria um circuito novo: o inconsciente encontra sistemas construídos precisamente para reforçar repetição, estímulo e permanência da atenção. Como se a tecnologia tivesse industrializado certas dinâmicas psíquicas. 

O sujeito hiperestimulado 

O problema, de algum modo, não é apenas excesso de informação. Por si só a informação não gera tanto estrago. É excesso de ativação emocional pelo que antes nem tinha significado. 

O sujeito contemporâneo é atravessado por indignação, comparação, ansiedade, desejo, medo, validação e rejeição em escalas que nenhuma outra época produziu de maneira tão contínua. Mesmo sozinho em um quarto, alguém pode experimentar dezenas de microimpactos psíquicos em poucos minutos. 

A mente nunca desliga completamente. E talvez seja por isso que tantas pessoas já não conseguem diferenciar silêncio de desconforto. 

O inconsciente não desapareceu. Ele perdeu privacidade 

Existe uma leitura e entendimento geral de que o mundo digital tornou as pessoas mais superficiais e menos profundas psicologicamente. Em suma, não posso determinar isso, uma vez que é preciso considerar muitas outras variáveis. 

Talvez as palavras “superficiais” e “profundas” não sejam bons exemplos agora. De fato, nunca houve tanta exposição involuntária da vida psíquica. Isso muda as coisas. 

O que antes surgia em sintomas isolados, específicos, agora aparece em tempo real. Na compulsão por atualização, na necessidade de validação, na exposição constante, na ansiedade por presença e, principalmente, na dificuldade de sustentar vazio e silêncio. 

A mente fala o tempo inteiro e o problema é que ela agora fala em público. 

A tecnologia não criou o inconsciente. Só deu banda larga a ele 

Essa é a hipótese mais importante aqui. O digital não inventou desejo, narcisismo, compulsão, insegurança ou repetição. Tudo isso já existia. O que mudou foi a velocidade, a intensidade e a escala. 

O inconsciente, que antes se esgueirava lentamente por sintomas e símbolos, agora encontra meios instantâneos de expressão. 

Acho que isso transforma profundamente a experiência humana; não porque nos tornamos outra espécie, mas porque nunca estivemos tão expostos a nós mesmos. 

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Rodrigo Gomes Rodrigues
Rodrigo Gomes Rodrigues
Artigos: 14

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